quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Na ponta dos dedos com... Fabien Silvano


Olá, Fabien! É um gosto poder conhecer-te melhor e apresentar-te aos seguidores deste espaço, para começar: Como que é que te iniciaste na escrita?
Olá! O gosto é todo meu e, desde já, muito obrigado pela oportunidade.
Para ser sincero, sempre escrevi, desde muito novo. Pequenos textos, comentários, até cheguei a escrever um livro de 10 páginas, tinha os meus 11 anos, uma coisa muito pessoal, mas para mim já era uma ideia do que poderia ser um livro de verdade. Depois, tudo começou a sério quando tive um blogue onde publicava histórias de ficção. E aí, sim, percebi que a escrita era o começo.

Qual o sentimento que te domina quando escreves?
Domina a paixão. Quando abro o computador e sei que vou escrever fico completamente derretido a olhar para as teclas, para as frases, para as personagens… sou eu que vou criar história, então apaixono-me a cada instante e isso faz-me escrever sem medos, com total confiança.

O que é que a escrita mudou em ti, enquanto pessoa?
Não gosto muito de falar do que já passou. Gosto de falar aqui, agora, no presente. A escrita muda-me todos os dias. Torna-me mais atento ao mundo exterior, com mais capacidade para ouvir os outros, mais opinativo, mas, por outro lado, mais criativo, com vontade para me sentir completamente focado no que quero. E, por incrível que pareça, a escrita trouxe-me a verdade. E quando falo em verdade, falo nisso mesmo, em não mentir, ser sempre sincero. Isso foi o ponto-chave.

E enquanto escritor, o que tens aprendido?
Tenho aprendido tanta coisa e sinto que há um oceano gigantesco por descobrir. Mas isso é o desafiante nisto tudo. A descoberta, todos os dias. E vou aprendendo a aperfeiçoar a minha escrita, interessar-me cada vez mais por escrever bem português, mas acima de tudo valorizar imenso as opiniões dos leitores. É o mais importante, sem dúvida alguma.

A escrita é para ti, uma necessidade ou um passatempo?
Uma necessidade, mas uma necessidade gigante, mesmo. Sinto que tenho de expulsar o que me sufoca aqui dentro. E só a escrita mo permite fazer. Porque é minha e é de mim para o público.

Nasceste em França. Este país e esta cultura teve algum impacto na tua escrita? Ou é apenas um pormenor técnico?
Tenho grande parte da minha família lá, mas diria que um pormenor técnico, apesar de ir buscar a sensibilidade e o amor, tão caracteristicamente franceses, quer para a minha vida pessoal como profissional. 


Começaste por publicar “Poder Canibal”. Podes falar-nos um pouco sobre este título?
Demorou a escolher, é verdade, mas acho que faz todo o sentido. Quis mostrar às pessoas que não há só violência física, há também a violência psicológica e essa pode ser um perigo quando usada de forma extrema. Aqui é a mesma coisa, todos sabemos o que é o canibalismo, palavra por palavra. Agora, sabemos mesmo o que é o canibalismo psicológico? Consumirmos a energia e o poder do outro? O título foi por aí.

É um livro que aborda temas fortes e controversos. Como surgiu a ideia para este livro?
Através de um blogue que tive há 3 anos. Já ia para o seu 3º ano de existência e eu ia publicar mais uma história, mas sentia que era forte demais para uma meia dúzia de páginas. Pensei, não, isto é um livro. Tem de ser um livro. Tenho de o marcar assim. E depois fala de tudo aquilo que eu tinha de falar para o arranque da minha carreira: o tráfico, a corrupção, o sexo, o terrorismo, a guerra… tudo isso. Eu tinha de o fazer, porque me prendia a respiração e só me pude sentir liberto depois de o ter escrito.

Quais os trabalhos que já realizaste no âmbito da escrita, para além desta obra?
Poucos, mas ótimos até agora. Escrevi peças de teatro para a Academia de Teatro do meu antigo colégio e fiz, ainda, parte de dois projetos coletivos recentes da Chiado Books.

A tua escrita é ficcional ou tem conotação pessoal?
Ficcional. No entanto, faço questão de meter um pedaço de mim em cada personagem. A Frederica, por exemplo, a personagem principal de “Poder Canibal”, é um monstro de pessoa e, lá está, tem um pouco o meu lado mais prepotente, atenção que não estou a dizer que sou maléfico (risos), mas tem esse lado de justiça dura. O facto de inserir casais LGBT nas minhas histórias não é por acaso, também faz parte de mim... e tudo isso contribui para uma mistura entre o pessoal e a ficção muito harmoniosa, sem nunca se perceber exatamente que o é. 

Como encaras o processo de edição em Portugal?
Caro. Não há muitos apoios, ou nenhuns mesmo, para assumir novos talentos. As editoras deviam abrir concursos, passatempos, apostar em talentos novos, fazê-los florir e apoiá-los com unhas e dentes para que possam construir carreiras de luxo. Claro que Portugal é um universo muito pequeno, então é difícil encarar o processo de edição com leveza. Acima de tudo, tem de haver uma grande cooperação com a editora e com todos os envolvidos, sem nunca desistirmos daquilo que é o objetivo final: o livro.

Além da escrita, que outras paixões, nutres que te completam enquanto pessoa?
O mundo do espetáculo, sem dúvida. E quando falo disto falo de tudo, englobando a representação, produção, realização, encenação… é tudo tão fascinante e tão aberto à nossa liberdade de criação que me apaixono todos os dias por isso.

Quais os temas que gostas de abordar quando escreves?
Temas que provocam comichão, temas polémicos, que nos fazem pensar. Gosto de escrever e de saber que do outro lado possam saltar da cadeira, pensar, remexer, voltar atrás. É agitar o leitor. Isso é muito estimulante para mim. Falar de coisas que são tabus e conspirar nesse sentido. Será que isto é assim? E se uníssemos esta pessoa com aquela, que explosão daria? Adoro entrar em mundos desconhecidos e que os outros entrem comigo também.

Se só pudesses ler apenas um único livro para o resto da tua vida, qual seria o “privilegiado”?
Os Segredos que nunca nos contaram, Albert Espinosa. Por tudo.

Para quando, os teus leitores, poderão esperar um novo livro?
Apesar de ter objetivos muito vincados, não gosto de marcar prazos, quando for, foi. O novo livro é isso mesmo, quando for, foi. Mas já está escrito e gostava muito que saísse este ano. Vamos ver…

Se tivesses de escrever outro género literário, a qual desafio te proporias?
Biografias. Ouvir o outro e saber que histórias tem para me contar. Gosto muito de ouvir, de conversar, de sentir… e o género biográfico ia trazer-me isso.

Imagina a tua vida sem a escrita, como seria?
Neste momento? Vazia. Preciso muito da escrita para me sentir vivo e um completo fascinado pelo mundo.

Apenas numa palavra, descreve-te: Informal.



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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Na ponta dos dedos com... Mer Rose

Como que é que te iniciaste na escrita?
A paixão pela escrita, começou desde muito nova. Sempre vivi rodeada de livros, por isso a leitura sempre esteve presente, da leitura para a escrita foi um repente. Tenho textos escritos aos onze anos!Então, foi a conjugação perfeita. 

O que é que a escrita mudou em ti, enquanto pessoa? A escrita, trouxe-me novas perspectivas.  Deu-me, oportunidade de partilhar também o que é a minha visão sobre o mundo. Podendo transcrever tudo o que não se toca, não se olha, não se cheira, mas sente-se com tal sinestesia, que todos os sentidos ficam trocados. A escrita escrita fez, com que a minha alma renascesse. 


O porquê do pseudónimo “Mer Rose”? Se há coisa no mundo que me inspira, que me abriga, que me conquista e que me intriga é o mar, sem duvida! Um dia vi um por do Sol à beira-mar e num repente o céu alaranjado, espelhou-se por todo o mar e deu-lhe um tom rosado. Assim fiquei, com a magnitude daquela paisagem, na mente. Foi a inspiração no momento e surgiu Mer Rose 

Como definirias esta arte na tua vida? É uma parte de mim, é uma parte do que eu sou, como pessoa, como parte integrante da natureza, somos um conjunto de átomos, os mesmos que formam o universo, então também somos parte dele. A escrita na minha vida não tem espaço, porque eu escrevo em qualquer tempo, sem horas contadas. 

O teu primeiro livro publicado chama-se “Fragmentos Sedimentados”. Podes falar-nos um pouco dele? Este livro foi concebido como um puzzle, com várias peças, fui-me inspirando em todas as pessoas que me rodeavam, que se encaixavam na perfeição de cada verso. É um quebra-cabeças imperfeito. Daí o nome “ Fragmentos Sedimentados”. É um livro repleto de sentires, com muitos olhares, sobretudo para um horizonte desfocado, onde nada acontece.

Como surgiram as ideias para compor este livro? Foi um desabrochar de sentimentos. Constatações de realidades, foram as vivências expressas em palavras, de alguém, que passou e sentiu, de alguém, que parou e ouviu ou de alguém que falou não foi ouvido. Assim como tantas outras histórias. Mas aquelas foram minhas. 

Sentes que ainda há algum tipo de preconceito com os escritores do género tão complexo e delicado que é a poesia? Sinto, que há muita gente, que considera a poesia ou até mesmo a prosa poética, mais complexa do que o que é na realidade. Contudo a poesia vai, desde o soneto mais elaborado até à quadra de Sto António, pendurada no manjerico. A poesia faz parte da língua portuguesa. Todos somos um pouco poetas.

Quais os trabalhos que já realizaste no âmbito da escrita, para além deste primeiro título? Tenho tido participado, em algumas antologias poéticas e não só. Este ano fui convidada pela Chiado editora, a participar na antologia “Três Quartos Dum Amor”, na coleção de poesia contemporânea “Entre o Sono e o Sonho” pela segunda vez. Participei em algumas edições da revista on line “ Primeiro Capítulo “ também tive a oportunidade de partilhar o meu trabalho noutros projectos como “Dança de Palavras “ Orquídea Edições, “Perdidamente Vol III” . Integrei também em algumas edições da colibri na antologia “Eclética”, entre outras. Aqui está um pouco do meu trabalho.

A tua escrita é ficcional ou tem conotação pessoal? Tem sempre algo de pessoal, mesmo que não falemos de nós, mas sentimos sempre como nós. Por vezes a inspiração fala-nos de coisas, que os ouvidos não entendem, mas o coração sente.  Nunca é totalmente ficção, nem totalmente pessoal. 

Quais os temas que gostas de abordar quando escreves? Gosto principalmente de escrever sobre o que não se vê. De sensações, daquelas que nos apuram os sentidos e nos dão a visão do que não se toca. 

Se só pudesses ler apenas um único livro para o resto da tua vida, qual seria o “privilegiado”? Algo que me marcou e me abriu os horizontes da visão de Fiódor Dostoiévski “Um Pequeno Herói”.

Pensas em publicar novamente? Sim, claro. Tenho mais projetos em mente. Mas ainda está em estudo.

Se tivesses de escrever noutro género literário, a qual desafio te proporias? Depois da poesia um romance, talvez... 

Imagina a tua vida sem a escrita, como seria? Completamente apagada, não me imagino, sequer sem escrever. É como comer chocolate sem sabor, ou o limão sem o ácido. Seria esquisita, no mínimo! 

Apenas numa palavra, descreve-te: Assimetria

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Na ponta dos dedos com... Luís Vilas Espinheira

Luís Vilas Espinheira
Nasceu a 21 de janeiro de 1995 no Porto. Orgulhoso minhoto da freguesia de Lanhelas, em Caminha, Viana do Castelo, desde cedo teve paixão por ouvir e contar histórias.
As letras e os livros sempre o fascinaram e por isso licenciou-se em Linguística na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, em 2017, onde viveu os anos mais intensos da sua vida.
Homem da noite, trabalha desde 2014 em discotecas e bares, ao fim de semana.
Depois da licenciatura, ingressou no curso de Apresentação de Televisão e Rádio na World Academy para aprofundar os seus conhecimentos noutra área de seu grande interesse: a televisão.


Olá Luís é um gosto poder conhecer-te melhor e apresentar-te aos seguidores deste espaço, para começar: Como que é que te iniciaste na escrita? 
Não é fácil localizar no tempo o início, porque, na realidade, eu sempre escrevi, de todas as formas que se possa imaginar e sobre tudo o que se possa imaginar. Desde que conheci o teclado do computador, ainda em pequeno, que sempre me fascinou o mundo da escrita. Escrevia para mim. Depois, vieram as redes sociais e foi lá que sempre publiquei textos a dar a minha opinião sobre tudo. Opinião essa que mudou consoante amadureci. E a escrita amadureceu comigo. Aprendo muito a escrever e conheço-me ainda melhor todos os dias porque tenho escrito todos os dias.

Qual o sentimento que te domina quando escreves? 
Depende. Adoro começar histórias. Paro muitas vezes durante o desenvolvimento delas. E acabá-las é um turbilhão de emoções. "Matar personagens" é a minha maior responsabilidade enquanto autor, porque já aconteceu "zangar-me" comigo mesmo por tomar determinadas decisões em prol do impacto e qualidade da história que estou a escrever. A escolha é sempre minha, claro, mas às vezes, por querer passar alguma mensagem, tomo decisões que chegam a emocionar-me, como autor e como ser humano.
Mas se pudesse escolher uma palavra, diria "intimidade". Porque sou eu comigo mesmo, num mundo em que eu mando e onde decido o futuro das minhas personagens. E transponho os meus ideais nelas e nas suas atitudes, tal como coisas que me irritam ou que eu abomino.

O que é que a escrita mudou em ti, enquanto pessoa? 
Sempre fui muito observador, mas agora sou mais ainda. Gestos, atitudes, expressões, aponto tudo na minha cabeça e fica lá a marinar para construir personagens. E às vezes, por ser aluado, nem sei de onde veio a construção daquela personagem. Enquanto pessoa, acho que me tornou mais transparente perante as pessoas que me conheciam. Porque há uma partilha para um público de um mundo só nosso. E aí, as pessoas já nos conhecem melhor, muitas vezes sem sequer se relacionarem connosco.

E enquanto escritor, o que tens aprendido? 
Acima de tudo, e cada vez mais, que não há uma linha tão rígida que separe pessoas boas e pessoas más. A realidade é que há perspetivas e todos nós temos muitos anjos e demónios dentro de nós e a definição de bem e de mal muda de pessoa para pessoa. E mesmo dentro de cada pessoa, muda de contexto para contexto. Aprende-se muito a construir personagens, porque nós sabemos os segredos delas e o que elas pensam interiormente e sabemos também aquilo que elas demonstram e aquilo que elas são perante a "sociedade". Aprendo muito também a lidar com a crítica. 

Tens algum ritual de escrita? 
Podia dizer que mergulho a minha pena em tinta, bebo um portinho, reflito a olhar para uma paisagem e a sentir o cheiro da terra molhada (risos). Era lindo dizer isso, mas a realidade é que pôr-me em frente a um teclado e a um ecrã, com a cabeça a trabalhar e os dedos a fazerem-lhe a vontade é o meu ritual. É aí que as coisas fluem. Não tenho hábitos muito clássicos, sou o mais simples possível nesse sentido.

A escrita é para ti, uma necessidade ou um passatempo? 
É essencialmente um passatempo, mas às vezes é terapêutico, porque até as insónias se tornam produtivas. O "não ter nada para fazer" torna-se um momento de criação constante: automaticamente penso nas minhas personagens e no rumo que lhes vou dar. E aí, tenho de ir a correr para o computador.

Licenciaste-te em Linguística e logo depois ingressaste num curso de Apresentação de Televisão e Rádio. És um homem das artes. Gostas de comunicar? 
Eu sou um comunicador por defeito e qualidade. Aliás, sou o único neto dos meus avós (tanto do lado paterno como materno), que se virou para as letras. Os meus primos e o meu irmão são todos das ciências, dos números e das contas. Gosto muito de falar, ouvir e aconselhar. E essencialmente gosto de pessoas e tenho muita paciência para toda a gente. No fundo, nem é paciência, acaba por ser interesse, porque em cada pessoa há um mundo por descobrir. E é a falar que o descobrimos. 

Esta formação teve impacto no teu trabalho enquanto escritor?
Licenciar-me em Linguística era inevitável. Não foi a minha primeira escolha, mas parece que foi destinado, apesar de eu não acreditar nada nessas coisas. Aumentou ainda mais o meu amor pelas letras e pela comunicação e na importância da partilha de mensagens. Enquanto houver textos a correr, uma cultura constrói-se todos os dias e eu sinto-me muito orgulhoso em já ter dado o meu pequeno contributo para isso. No entanto, apesar de já ter dado uns toques no mundo da literatura, o título de "escritor", para mim, ainda é um bocado pesado. Em primeiro lugar porque sou muito novo e tenho outros interesses e em segundo lugar porque não sou uma pessoa assim tão séria como esse título exige socialmente. Sou extremamente brincalhão e despreocupado. Escrever é apenas uma faceta. Prefiro o título de autor, porque, para já, é isso que sou efetivamente.
Quanto ao curso de apresentador de TV e rádio, esse já tem mais a ver com a minha personalidade brincalhona e conversadora. Acho que, antes de ser escritor, prefiro ser "aquele jovem simpático e brincalhão que fala sobre qualquer assunto, com qualquer pessoa". É isso que eu quero, para já. Depois, venha o título de "escritor" e eu assumo-o com toda a minha responsabilidade. Tenho tempo.

Prenúncio de Morte, 2018

O teu primeiro livro publicado chama-se “Prenúncio de Morte”, e chegou aos leitores em junho de 2018. Podes falar-nos um pouco sobre ele? 
Comecei a escrevê-lo quando tinha 19 anos. Às escondidas, de mim para mim. Retrata uma família classe alta da Foz do Douro, no Porto, que tem uma imagem de fachada e muitos fantasmas atrás do dinheiro, dos saltos altos e dos discursos. O patriarca, Aníbal Galhardo, é dono de uma fábrica de vinho do Porto e é um tanto conservador. Tem uma filha, Helena, de 50 anos do primeiro casamento, em que ficou viúvo, e dois, Francisco e Vera, de um segundo casamento (com uma mulher da idade da filha mais velha) que ainda não têm 30. Ou seja, os filhos mais novos têm quase idade para ser netos dele. E são consequentemente mais rebeldes e mais contemporâneos, havendo assim um choque de gerações, com uma mistura de drama e comédia. Durante a trama, há uma figura que ameaça aquela família e a história constrói-se à volta de descobrir quem ela é.

Como surgiram as ideias para compor o teu primeiro livro?
Elas estão todas aqui. O que falta é montar o puzzle. Ou seja, encadeá-las, torná-las coerentes de forma a contar uma história que transmita mensagens. Depois claro que, no processo criativo, há situações, pessoas (fictícias ou não) e vivências que me vão inspirando e eu decido se quero retratá-las ali ou não.

E como tem sido a reação dos leitores face a este trabalho?
Este primeiro trabalho fez-me aprender a lidar com a crítica, como já disse. Porque é impossível agradar a gregos e a troianos. No geral, as pessoas gostam da história e identificam-se sempre com personagens diferentes, o que me dá um grande orgulho, porque não há a tomada de partidos do público pelo bonzinho típico. As pessoas tomam partido de pessoas como elas, com uma história e personalidade com as quais se identificaram. E isso é o mais positivo disto tudo.

Apesar de ser o primeiro livro que publicas, é também o primeiro livro que escreves?
Não é porque escrevi alguns antes deste. O problema é já tê-los perdido no tempo, em disquetes e pens. É pena, tinha histórias engraçadas. Mas, a sério, a sério, acho que posso considerá-lo o meu primogénito. Vamos assumir os outros como sendo ensaios. Depois deste, já escrevi mais dois e já comecei o quarto. E esses estão guardadinhos.

Que outras obras já escreveste?
Depois deste livro, que comecei a escrever em 2014, já escrevi mais dois e vou agora no quarto. São todos romances que, em pequenos detalhes, estão todos relacionados. É o meu mundo, a minha pequena sociedade. 

Sobre que temas te debruças para criares os teus romances?
Tenho muitas cenas eróticas que desconstroem mitos sobre o prazer e a forma como os nossos desejos são manipulados pela sociedade. Drogas leves e o álcool (tenho muitas personagens orgulhosamente boémias). Prostituição. Descoberta da sexualidade. O feminismo e, por outro lado, o conservadorismo. A riqueza e a pobreza. O egocentrismo. As crianças índigo, que são crianças extremamente inteligentes com um grande senso crítico e intuitivo que lidam muito mal com algumas imposições sociais, nomeadamente a escola. A caridade e a corrupção. A traição. O choque de gerações. A religião (até tenho uma freira carmelita neste meu quarto livro).

Já realizaste outros trabalhos no âmbito da escrita? Quais?
Às vezes escrevo umas crónicas no Facebook e no LinkedIn por conta própria que o pessoal partilha, mas para além dos romances, a coisa mais séria que fiz na escrita foi o meu projeto de final de licenciatura (risos).

Tens uma página de autor no Facebook. Consideras importante o contato com o público?
O público é o nosso soro. E quanto maior, mais precisamos dele. Escrevemos para nós e só depois para ele. Mas a opinião deles é fulcral e constrói a nossa imagem enquanto autor. Recebo algumas mensagens muito queridas e com críticas honestas e construtivas. Há de tudo. Mas eu agradeço genuinamente cada uma delas.

Gostas de ler? É preciso ler para escrever bem? 
A escrita funciona de forma simples: gostar de ler é a base de tudo. É a terra. Ter o bichinho é a semente. Ter imaginação é a água. E o sol é mantermo-nos constantemente atentos ao que se passa. E depois, a obra floresce. E cresce.

Como encaras o processo de edição em Portugal? 
No meu caso foi fácil. A Capital Books foi uma boa editora, apesar de poder ter sido melhor em alguns aspetos. Foram rápidos, atenciosos, pacientes e ajudaram no que eu precisei. Apenas acho injusta a percentagem que um autor recebe, em Portugal, por ter a sua obra à venda numa loja. É demasiado ingrata. Claro que as editoras e as lojas projetam o nosso trabalho para as mãos das pessoas. Mas se não existissem os autores, eles não projetavam nada. Acho que a parte que recebíamos devia ser muito maior. Não sei se será muito ético falar de valores mas, no meu caso, recebo 12,5% do valor total da minha obra. 

Se só pudesses ler apenas um único livro para o resto da tua vida, qual seria o privilegiado?
Escolha difícil. Mas acho que fechava os olhos e escolhia aleatoriamente algum policial da Agatha Christie que tivesse o Poirot como protagonista. 

Pensas em publicar novamente? 
Parar é morrer. Vou publicar até gastar as teclas. Acho que tenho mais e melhor para mostrar, até porque entretanto cresci, amadureci e ganhei mais experiência. E cada história que escrevo é um pedaço de mim que vai sendo revelado.

Se tivesses de escrever noutro género literário, a qual desafio te proporias?
Sou um pouco esquisito nesse sentido. A minha queda é mesmo para os romances. Histórias fictícias em que eu possa criar o meu próprio mundo. Mas se um dia se proporcionar e tiver motivos suficientes, porque não uma biografia? Ou uma compilação de crónicas sociais…

O que é que os leitores podem esperar de ti para o futuro?
Mais drama, mais seriedade, mais lágrimas, mas, acima de tudo, muito humor e muitas gargalhadas. Mais assuntos polémicos e mais discussão. Mais juventude e mais variedade. Pessoas que existem, sem querer enganar ninguém nem florear a realidade. Gosto de equilibrar estes fatores todos e é isso que eu pretendo. Porque a realidade está à nossa frente, o mundo não pára e eu quero que as pessoas tenham consciência disso, tanto se me lerem hoje, como se me lerem amanhã.

Sabe mais sobre o autor na sua página de Facebook (AQUI)
Sabe mais sobre o livro "Prenúncio de Morte" (AQUI)

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Fragmentos Sedimentados de Mer Rose

Hoje venho falar-vos da Mer Rose, pseudónimo da autora Raquel Velho, que publicou o título Fragmentos Sedimentados. Este é um livro extremamente pequeno e que se lê com relativa facilidade.

A Mer Rose escreve poesia e esta sua primeira obra é uma compilação de alguns poemas, que versam sobre os mais variados temas. A introspeção é provavelmente o que está mais patente ao longo das suas páginas.

A autora recorre a diversos recursos expressivos para nos dar a conhecer o seu pensamento, o seu "eu" e o que a rodeia. A sua escrita é rica e cuidada, acessível a todo o leitor. Permite-nos estar em contacto com a própria autora, numa ligação especial, através das palavras. 

Apesar de ter gostado da leitura, senti que a autora poderá fazer mais, isto é, apesar do talento patente na sua poesia, o livro merecia mais algumas páginas, mais alguns poemas. A Mer Rose tem mais para dar! 

Leiam este título e apoiem os autores portugueses!



segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Rosas Brancas de Dulcí Ferreira

Ao longo das quatrocentas páginas que compõem este primeiro romance da autora Dulcí Ferreira, deparamo-nos com histórias de todos nós, onde temas da nossa atualidade fazem as honras, graças à escrita simples e escorreita da Dulcí.

Este romance de estreia da autora é rico em vocabulário e tem uma narrativa coesa e bem construída. Através de uma linguagem direta e simples, acessível a todo o leitor, e com capítulos não muito longos, este é um primeiro livro que vence.

A fluidez e o dinamismo da narrativa tornam a leitura agradável. Aliado a estes pontos positivos, está a partilha de imagens que acompanha a obra e nos ajuda a entrar mais na história. 

A obra, está no geral, muito bem conseguida. Resta-me aqui, parabenizar a Dulcí por este romance de estreia surpreendente, fazendo votos de que venham muitos mais.

Este romance é também especial porque tem uma vertente solidária, sendo que parte dos lucros revertiam a favor de uma jovem de Castro Daire, com paralisia cerebral.